quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Escolha a sua mesa

Finalmente comecei a assistir Mad Men, série americana tão bem falada nos últimos tempos. Pra quem não conhece o pano de fundo é anos 50, Estados Unidos, mercado de propaganda, Madison Ave. Tudo isso amarrado em figurinos, ambientação e contextos perfeitos pra despertar o antropólogo em todos nós. Foram apenas 3 episódios, suficiente pra ficar viciada e para perceber que triste lugar as mulheres ocupavam (?) na sociedade. Ou perfeitas e frustradas donas-de-casa ou secretárias e telefonistas em grandes empresas (afinal o que mais teriam capacidade pra fazer?) ou o tipo livre arbítrio, artístico, solteiras e, sim, amantes dos homens casados com as 'do lar'.

Mais ou menos 60 anos depois - várias ditas revoluções femininas - ainda discutimos o assunto 'mulheres', 'girl effect', 'women power' como se fosse uma novidade, como se ainda fóssemos, uma minoria, digna de tratamento especial, análises, dias comemorativos em calendários. Há quem defenda que é positivo, que pelo menos está em pauta. Eu fico com a sensação de que quando muito se fala, pouco se efetiva.

Há uma palestra sensacional (e muito poderosa) do TED, ainda não tanto divulgada considerando que já completa um ano, da Sheryl Sandberg, COO do Facebook, onde ela fala dos pqs de poucas mulheres líderes, grandes executivas, presidentes. E ali, sem deixar de valorizar toda a conversa que circunda o tema, ela coloca grande responsabilidade nas próprias mulheres, no que nós podemos fazer pra garantir o nosso valor e nosso reconhecimento. Reproduzo em inglês as principais mensagens e deixo o link no final do post para que assistam, mulheres, assistam!

(1) Sit at the table -- have the confidence to reach for opportunities; (2) Make your partner a real partner -- share responsibilities at home so you and your partner can both pursue careers; and (3) Don't leave before you leave -- challenge yourself at work so that when you have a decision to make, there are compelling reasons to stay or come back.

Vivo ou vivi o discurso da Sheryl algumas vezes. Tirei 10 no primeiro item, não sem fazê-lo muitas vezes com um excesso de humildade, preocupação que realmente não vejo nos homens. O terceiro sempre me atormentou e na certa fui das mulheres que mesmo antes de casar já pensava em como acomodaria os filhos na rotina de trabalho que imaginava eu teria, meu deus como pensei nisso, culminado em um momento de catarse durante a gravidez onde chorei horrores pensando em como não daria conta. O segundo é sempre uma aposta, afinal não preenchemos formulário de pesquisa antes de nos conectarmos emocionalmente com alguém, algumas facetas aparecem ao longo dos anos, outras apenas quando nascem os herdeiros, quando novos dados são lançados.

Aceitei em setembro um desafio de trabalho que mudou toda minha dinâmica familiar, forçou um re-balanceamento nas responsabilidades da casa e do filho, incluiu um fator distância física no relacionamento com o marido e com a cria. Estou feliz com a decisão, entendo como uma oportunidade que me coloca novamente em um caminho que abandonei no passado (olha o ponto 3 da Sheryl de novo aqui). No entanto, ouço vários comentários, recebo vários olhares, sou constantemente testada por sentimentos de culpa aventados por terceiros que escutam sobre minha rotina. Não é fácil. Mas se quisermos garantir um lugar nas mesas de liderança precisaremos renunciar - em parte - alguns papéis que consideramos por muito tempo vitais. Precisaremos criar melhores filhos e filhas. Talvez, principalmente filhos.

Em Mad Men, o personagem principal dá um ok pra esposa consumida por tremores consultar um analista. A princípio achamos legal da parte dele, a mulher parece gloriosa com a oportunidade. O que o episódio revela no final é que ele ao chegar em casa liga para o analista pra saber detalhes da consulta, o analista (homem) sem pudores conta tudo.

Não sei vocês, mas eu quero pagar meu próprio analista. Aliás, quero ser o analista. E quem sabe também o protagonista de sucesso da minha própria estória.

Palestra TED aqui
Sheryl Sandberg escreve sobre sua palestra aqui

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Meu filho, saiba quanto custa o que você merece

Esta semana circulou pelas redes mais um excelente texto da Eliane Brum para Época. 'Meu filho, você não merece nada' ecoou com força nos feeds dos meus amigos e dos amigos dos amigos no Facebook, recebi por email, foi curtido por mais de 120000 pessoas on-line. Antes de colocar meu ponto devo reforçar que é mais um texto muito bem escrito pela Eliane a quem já citei aqui em outro post. Não refuto o argumento dela, acho que todos conhecemos àqueles jovens que ela descreve como despreparados, entendi aqui no quesito 'horas bunda', 'tempo de vôo', 'vida per se'. Acho até, que apesar do foco do texto da Eliane recair sobre os 'jovens', encontramos diariamente em todas as gerações gente perdida neste detalhe fundamental da vida, os Peter Pans que ainda não encararam o que custa crescer.

Ao ler o texto também senti que faltou falar do outro lado, faltou falar daqueles muitos 'jovens' que conhecemos que correm atrás todos os dias, viram noites nos escritórios, que já perceberam que a vida não está aí pra nos dar nada de graça, tendo em casa o exemplo da necessidade deste esforço ou não. Jovens que sofrem com fracassos, que crescem com os erros, vendo ou não nos pais suporte financeiro e/ou emocional. Jovens que encontraram em outras pessoas, até mesmo no ambiente de trabalho, alguém em quem confiar, pedir uma mão, um conselho, um direcionamento, um 'por onde agora'. Pensei ainda no quão diferentes são - entre si - os filhos dos mesmos pais. O argumento de que a criação de cada um é diferente é válido, porém, tão diferente? A ponto de muita gente não se reconhecer em um irmão?

Já vi conhecidos e amigos criados com tudo, suporte financeiro e emocional, que precisaram se ausentar deste ambiente perfeito de CNTP pra se encontrar. Que pareceram (alguns parecem até hoje) entender todo o conforto a que tiveram acesso como um limitador ou como um fardo. Como se o mundo dissesse (e eu também ouvi isto na minha vida): 'Ah, assim é fácil, tudo entregue de bandeja. Quero ver fazer sem.'. Admiro ainda quem cresceu sem nada, tenho muito próximo exemplos de superação completa. Lembro de viajar pelas estradas no Brasil, passando por minúsculas cidades e pensar: 'Se você nasce aqui, como sai se quiser?'. Desconfio até, que ter acesso a tudo tem peso semelhante a não ter acesso a nada. E que vai depender de como cada um topa encarar o desafio, o que provar pra quem. Sou fascinada por estes dois extremos.

Sempre dormi ouvindo da minha mãe um 'Minha filha, você é linda, você é inteligente, pode fazer da sua vida o que quiser.' Ao contrário de me acomodar isso me deu um grande desafio de usar toda esta confiança em mim de todas as noites pra alguma coisa concreta. Também, pensando aqui com meus botões, sempre fomos em casa incluídos nos eventos, nas viagens, nos momentos dos meus pais. Claro, faziam viagens só eles, porém, estavam presentes em vários outros momentos, pareciam reforçar que erámos parte de suas vidas. Oportunidades à parte, não fiquei com a sensação de que a vida seria fácil, meus pais souberam dizer o que podíamos e o que não podíamos, o que era nosso e o que era deles até que conquistássemos nossa 'independência'. Meus pais me diziam que eu podia ser feliz, mas também sabiam dizer que pra alcançar a felicidade em plenitude, tal como imaginávamos o que seria esta felicidade, havia um pedágio, deles e da vida.

Então, direi pra meu filho que agora crio com todas essas influências, para o bem ou para o mal: 'Meu filho, você merece o mundo, mas ele não é grátis'.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A dança da solidão

"O homem deseja ser confirmado em seu ser pelo homem, e anseia por ter uma presença no ser do outro... - secreta e timidamente, ele espera por um Sim que lhe permita ser, e que só pode vir de uma pessoa humana a outra." (Martin Buber)

O clique do mouse piscava na tela no espaço dedicado ao 'status' do Facebook. Parei. Só. Pensei. Só pensei e decidi andar ao Hortifruti, deixando o piscar sedutor do status pra mais tarde. Respirei.

Saía do Hortifruti, sozinha, quando o sistema de som começou a tocar, em saxofone, "Noite Feliz". Talvez tenha sido a musicalidade do sax, aquela coisa de um vizinho solitário que toca durante uma noite fria a sua melancolia, talvez tenha sido o clima de Natal e minha lembrança das várias pessoas que vivem de fato sozinhas e de como a época não contribui em nada para as suas angústias (ou escolhas de vida), se estas existirem, talvez fosse minha mente mais livre - agora que tenho mais tempo - para pensamentos soltos e suas associações com o que nos cerca. Sei que imediatamente me lembrei que há tempos queria escrever sobre ser ou estar só.

No português o verbo faz toda a diferença, eu sei, mas no meu argumento, pouca. O que me atormenta, neste cenário ilusório de muitas e cada vez mais conexões que a tecnologia e suas redes permitem é como podemos nos sentir sós, neste caso o estar leva ao ser (ou poderia ser o contrário).

Uma amiga que também trabalha em casa como eu e que, também, tem seu 'ganha pão' focado nos 'amiúdes' da internet me confidenciou que tem cada vez menos vontade ou paciência (ou poderia ser o contrário) pra se encontrar fisicamente com as pessoas, pra jogar conversa fora, pra entrar em debates profundos da vida (aqueles que gostamos quando estamos em uma mesa de bar com amigos). Fui percebendo que ela não está sozinha (neste caso!) e que conheço mais gente se fechando.

É um círculo pouco virtuoso? Ou teria ela identificado o que a faz completa (pequenas e poucas ligações)? Ou seria coisa do ovo e da galinha: um estar só que a faz querer ser só e se bastar ou um se bastar que a fazer querer estar só? Ou seria a tal 'falsa ilusão' de contato e de intimidade e interação proporcionados pelos amigos do Facebook, Twitter e afins?

A conclusão da minha dança da solidão e do meu muito pensar (ou poderia ser o contrário) é que no fundo, lá no fundinho mesmo, estaremos sempre sozinhos. Aquele segredo que você nunca contou pra alguém, aquele medo que ninguém sabe que você tem, há coisas nunca compartilhadas no seu mural. Imagino. No meu há. Há uma realização de que poucas mãos serão estendidas em sua direção quando o 'bicho' realmente pegar.

Concordo com o Martin Buber, quem deu tanta ênfase à interação, à comunicação e ao diálogo. Mas também concordo com um escritor italiano, Dino Buzzatti, citado por Arthur Dapieve no Globo, dia desses: "Justamente naquela época Drogo deu-se conta de que os homens, ainda que possam se querer bem, permanecem sempre distantes; que se alguém sofre, a dor é totalmente sua, ninguém mais pode tomar pra si uma mínima parte dela; que se alguém sofre, os outros não vão sofrer por isso, ainda que o amor seja grande, e é isso que causa a solidão da vida."

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

40

Uma história é feita de estórias. Nem sempre boas (o que parece justo), nem sempre perfeitas (o que parece coerente), nem sempre alegres (o que é aprendizado).

É feita de gente, é feita da gente. E assim, há todo sentido nos nuances e nos contrastes, para o bem ou para o mal. Mais importante: é feita do que nos é deixado e do que deixamos.

Tal como ver um filho querer andar com nosso sapato, mas sabendo que o ensinaremos que com os próprios pés é mais legal.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Os planos da bicicleta

Demorei dois anos e meio pra ter coragem de me interessar de novo pela bicicleta. Ela ficava ali na garagem encostada, sujinha e triste. Para o presente do dia dos pais resolvi que faria uma super revisão e colocaria a melhor cadeirinha pra levar o herdeiro. E assim fiz. Na maior empolgação. Principalmente porque agora tinha tempo pra tal e mais, teria flexibilidade pra usar a magrela pelas ruas do Rio.

Então hoje, depois de uma hora e meia de praia, de conversa agradável, esfiha, mate, cachoro quente genial, foto tirada da praia que estava gloriosa descobri que tinham levado a bike, assim, levado. O que não tinham conseguido em 2008 foi embora agora.

E ali, olhando a grade vazia onde ela estava parada e travada fui forçada a praticar um desapego imediato. Não do bem material, este mais óbvio de repor. Mas sim, dos planos que havia feito com ela, das risadas que imaginei meu filho dando ao sentar naquela cadeirinha de capacete, do vento na cara que havia sentido ao pedalar nas minhas havaianas até ali, da idéia de que esta cidade linda tem chance de melhorar.

 
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