quarta-feira, 12 de março de 2008

Mais leão do que camelo e criança

"O problema do leão é que, na maioria dos casos, ele ainda está preso ao que ele é contra."

Na matéria de capa da Vida Simples deste mês o tema 'Liberdade' foi abordado sob diferentes perspectivas, mas foi na metáfora de Nietzsche que mais me encontrei e me reconheci.

Diz ele que o homem nasce camelo, recebe todas as influências externas, rumina, rumina, processa, processa, alinhado com valores e crenças pré existentes, mas não questiona. Não possui capacidade de análise crítica para se desvencilhar das tradições. Para o filósofo a maior parte da humanidade é camelo, caminhando pelo deserto, sem desejos de mudança. Como camelo, está tão inserido no seu próprio contexto que não consegue (não tenta?) se descolar (se libertar) de si mesmo, se olhar com isenção.

Caminhando pelo deserto, os camelos (alguns) se transformam em leões, o espírito do "Eu Quero", ferozes no seu conflito contra o normal, aquilo que é mais comum (todos os camelos?!). Líder no que acredita e domina, capaz de dedicar sua vida pela inovação, pela diferença que propõe e pensa. Impotente, no entanto, para praticar o desapego de ser só aquilo que quer, podendo ser consumido pelo próprio desejo.

Somente a criança viveria o presente, pois ela é livre no seu olhar inocente do novo, na brincadeira de apenas ser. Sua capacidade de esquecimento permite que seu ciclo - virtuoso - se renove, não há vícios, nem um exterior que motive o seu agir. Sua plenitude é interna.

“Três transformações do espírito vos menciono: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.” Diz Nietzsche no primeiro discurso de "Assim falou Zaratustra". Miro na criança (miro?), mas me vejo ainda felina, muitas vezes solitária. Quero brincar mais de roda.

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