segunda-feira, 17 de março de 2008

Pode desenhar?

"15 Dinars!", esbravejava o motorista que tinha nos levado por uma longa distância entre duas cidades na Tunísia. Ele gritava porque queria que a gente entendesse que o '15' era '50', naquele inglês meio árabe, fifTEEN = fifTY, ah tá.

Foi um país de muitas caronas (até em cabine de caminhão), vans (que lá são chamadas de louages), ônibus e um único aluguel de carro com motorista! Chegávamos em El-Jem, vindos de Kairouan, uma viagem em que até Coca-Cola o motorista parou para comprar. Não entendemos tanta atenção, claro. Ficamos com receio de perguntar apesar da dúvida, normal (?). É que o preço do refrigerante (caro para os padrões) seria coberto pelos fifteen (fifty!) Dinars, como não.

Sei que quase apanhamos. De fato. Tudo por uma dificuldade na comunicação. Elevada à 10ª potência quando, num golpe de misericórdia, meu marido enfiou as mãos no bolso e sacou algumas pequenas moedas como que dizendo em gestos: 'É tudo que temos'. Um daqueles momentos em que deu vontade de falar árabe ou quem sabe ter usado, no momento do combinado do preço, a linguagem escrita com algarismos romanos para evitar mal entendidos, afinal 15 (um, cinco) é muito diferente de 50 (cinco, zero).

E por que não fizemos? Por que não deixamos mais claras - para nós e para os outros - as coisas que pensamos combinar e conversar? Por que tanto receio em perguntar se o que entendemos ouvir é realmente o que deveríamos ter escutado? Por que pensar que a falha na comunicação está em quem não entende e não em quem fala? Por que não ouvimos com a mesma atenção com a qual falamos? (e olha que temos dois ouvidos e uma só boca) Por que aumentamos um problema com gestuais e tons desmedidos que não levam a um lugar melhor? A um lugar de encontro?

Muitas perguntas. As respostas: quem sabe a gente desenha.

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