quarta-feira, 15 de julho de 2009

Seu apaixonado

O dia ia cinza quando entramos na igreja. O dia ia cinza e gélido. O dia ia sem energia vital.

Na véspera tinha segurado em minhas mãos, pela primeira vez, um atestado de óbito. Pedaço de papel necessário para a burocracia, tão insosso na representação daquela vida "de colores".

Um avesso a formalidades, alto por natureza, ele preenchia espaços sem pedir licença, servia sem perguntar.

Evitei olhar o corpo inerte, sem calor ou vitalidade: o seu apaixonado vivia de ir pra rua, nada de ficar parado.

Ao sair da igreja o dia ia quente, vibrante, colorido e acolhedor. Na descida do caixão olhei para o alto, para o céu de inverno muito azul e para a silhueta do muro que reluzia com o sol que o aquecia por trás. E me despedi do nosso apaixonado, com um sorriso.

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