quarta-feira, 28 de julho de 2010

Azul

- É nova ou a mesma? Levantou os olhos pra fitar com um misto de surpresa e ódio o chefe que debruçado sobre sua baia fazia a pergunta. Àquela hora da manhã, quando ainda havia silêncio no escritório, momento bom pra resolver algumas pendências pessoais antes de encarar a caixa lotada de e-mails com alguns problemas que mesmo resolvidos não dariam sentido real a vida. Já tão tarde pra uma mãe mulher e profissional, de pé desde 5 da manhã: filho alimentado, brincado, trocado, na creche. Mãe mal dormida, corpo torto de quem precisou compartilhar a cama com o filho que não queria dormir no próprio berço, faminta, cara lavada (banho pelo menos), roupa prática (pra não dizer pouco executiva). Ainda corada pelo calor suado das últimas 4 horas, potencializado pela rapidez com que dirigira pra chegar e poder endereçar aquele, o papel que o gerente enxergara ao lado do seu laptop. Mais uma multa.

- Sim, é outra. Disse lacônica tentando encerrar o assunto ali. O que obviamente não estava em seu controle, pois ainda precisou engolir com cara de sorriso amarelo: - Ich. Tem que tomar cuidado com os pontos na carteira. E partiu pra alguma atividade que não importuná-la.

Óbvio, os pontos. Sabem-se lá quantos a essa altura do campeonato, precisaria de tempo que não tinha pra checar esta informação, fez uma anotação mental na lista crescente de pendências. Olhou mais uma vez para o papel, tentando lembrar-se de mais um fatídico dia ou noite quando o filho teria passado mal, quando atrasada saíra de casa, quando o laptop teria demorado mais no shut down e o excesso de carros na garagem da empresa havia comido os minutos preciosos pra chegar à creche a tempo. Coisas que justificassem seu constante estado de pressa e seu pé cada vez mais pesado no acelerador.

Por um instante se deteve, e sua mente associativa fez um rápido link entre as multas recentes que se acumulavam 100% por excesso de velocidade e avanço de sinal, e seu ritmo frenético de vida. Mente associativa tem dessas coisas, também não pára ou descansa. Fato que já não controlava mais seu tempo e havia perdido o domínio de suas atividades de uma maneira que parecia sem volta. Estava cansada. Mais: praticamente entregava os pontos diante de algumas situações. Sem pretensões de dar conta de tudo, de preencher um posto utópico de super mulher. De verdade, estava no estágio avançado da mulher mãe que, na mais sã das consciências, se dá conta de sua incapacidade de atender a tudo e todos. Incapaz de se dar por satisfeita. Estava sempre devendo. Estava exausta.

Sem poder parar o mundo pra descer e deixar de ser gente grande, certa de que as coincidências só podem existir pra mais uma vez validar sua falta de controle vivia em paralelo um momento de provação no trabalho – morrer, crescer ou morrer crescendo – e um caos nas madrugadas com o sono inconstante do filho. Sem contar o quinto aniversário de casamento, próximo, como uma esperança para encurtar a distância do último ano, pós-nascimento e dedicação praticamente exclusiva ao herdeiro. Sem saber como adiar algumas prioridades do marido que haviam ficado pro fim da lista, muito menos como re-priorizá-las. Devia sempre, sem ter como negar.

Em um desses domingos quando o filho dormiu na hora certa, permitindo não só o café da manhã em paz como também a leitura da revista do jornal, descobriu uma viagem para a renovação do enlace, um local isolado, quase nada conhecido, que aceitava crianças (ainda não se via pronta pra tanto desapego e pra deixá-lo aos cuidados de outros). Pra não perder tempo e correr o risco de desistir da idéia em uma semana haviam feito as reservas, marcado o transfer entre aeroportos e pousada e comprado passagens. Iam.
A estrada sinuosa parecia esconder o que os coqueiros denunciavam, já estavam perto da praia. Quando chegaram passava das 4 da manhã e o jardim da pousada estava iluminado por poucas luzes que demarcavam os caminhos aos quartos sem interferir na silhueta da continuação do coqueiral antecipado na estrada. O silêncio cortado apenas pelo vento e pelo barulho do mar. Ao acordar, depois de poucas horas de sono extremamente revigorantes constatou que o vento e o barulho do mar eram os sons mais perceptíveis, sem interferência de outros.

O café da manhã, servido prato a prato, sem compromisso com horário, iniciou um ritmo que se repetiria nos próximos quatro dias, cada vez mais lento. O vento soprava com preguiça e o mar sem ondas parecia não querer trabalhar. Quer tenha sido pela água salgada do mar, pela água de formulação mineral diferente do chuveiro ou pelo shampoo infantil que usara (achou mais prático carregar na mala apenas o do filho) seu cabelo sempre fluido e ativo perdeu o movimento e grudado na cabeça ficou, possibilidade zero de ser penteado, passar os dedos pelas mechas nem pensar, a um passo de um dreadlock completo. Foi o primeiro sinal de que as coisas haviam parado. Na sequência, como que em bandeira branca de trégua o servidor de e-mails também travou o envio de novas lembranças de trabalho para o Blackberry (ou pelo menos foi o que concluiu, afinal era difícil acreditar que nenhum e-mail tivesse sido produzido no dia útil enforcado entre o mártir e o santo guerreiro). Deixou de lado o aparelho e a necessidade de acompanhar no Twitter ou no Facebook a vida das pessoas que seguia. A sua pisava os caminhos de pedrinhas, mais compridos do que pedia a praticidade, que cortavam o jardim da pousada, dando voltas, como em um shopping onde é mandatório passar por todas as lojas antes de chegar à escada rolante, passando pelas malocas, pelo burrinho que ali se alimentava, pela casa central onde aconteciam as refeições, até as choupanas que beiravam a praia.

Quando finalmente alcançou a choupana escolhida ainda carregava na bolsa de fralda, nas traquitanas de praia, no próprio filho no colo as lembranças da loucura da vida que temporariamente deixara pra trás. Não demorou muito para que a combinação de sol, mar, vento preguiçoso, queijo coalho grelhado com orégano, água de coco e suco de melancia fizesse com que as horas vagarosamente passassem e encontrassem o momento da soneca, pra pai e filho. Mais silêncio. Olhou para o livro de título profissional que a encarava. Deitou na rede pra iniciar a leitura. Semicerrou os olhos e com um sorriso leve pensou na multa, virando o rosto para se perder na trama azul que se fundia ao céu e mar do mesmo pantone. E dormiu.

1 participações:

Eleu Taguti disse...

A velha mania das mulheres que cumprem 3 turnos de trabalho (diga-se de passagem cada um deles multitask) de achar que o mundo para se pararmos. Não é verdade, digo aliviada ou quem sabe frustrada, que a gente pode parar, fechar os olhos, desligar o maldito blackberry e o mundo seguirá seu curso. Gostoso o seu texto. bj Eleu

 
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