terça-feira, 24 de agosto de 2010

Montanha-russa

"São mitos de calendário, tanto o ontem como o agora, e o teu aniversário é um nascer a toda hora." (Carlos Drummond de Andrade)

A primeira vez que usei óculos tinha 11 anos. Era do grupo dos populares na turma. E entrei em pânico quando todo mundo pareceu olhar pra mim e rir. A vergonha durou 5 minutos. Desde então, passados mais de 20 anos, não cogitei comprar ou usar novo par. Na última semana me lembrei com carinho desta primeira armação de óculos, vermelhinha (tinha certa personalidade), pensando se nos óculos que farei colocarei alguma referência e estilo desses do passado. Sim, farei óculos e pretendo usá-los. 23 anos de uso de lentes depois.

Não é que tivesse alguma rejeição ao iPhone, mas achava de fato que jamais largaria um Blackberry pra usar um aparelho de usabilidade a princípio fantástica, touch screen, ainda ícone na categoria. Ouvi algumas vezes que deveria, que o tal ícone era a minha cara e tals. Me rendi. Me emprestaram um iPhone mais antigo pra testar. Já falei que me rendi? No primeiro dia? Blackberry aposentado por enquanto. Até que novo desejo por novo modelo mental se instaure...

Quando mais nova, houve uma moda de calças coloridas, quem podia tinha as da marca Forum. Eu adorava aquilo, achava inusitado e me encontrava nas cores que quase ninguém queria usar, tinha uma roxa que nossa... me persegue em sonhos (ou pesadelos) ainda hoje. Sem contar nas botas (estas ainda hoje tenho) que não tirava dos pés, marca registrada. E um dia ouvi de um antigo namorado que era assim que ele me imaginava: trabalhando com propaganda, sempre neste 'estilo' calças coloridas e bota... Mal saberá ele como ERA meu modelito 'corporativa'. Modelo que depois de anos deixei pra trás. Mais um.

O desconhecido anda escondido por modelos mentais teimosos que insistimos em usar. Talvez por medo do que vamos encontrar. Talvez por medo do que não vamos encontrar. Eliane Brum falou melhor do que ninguém, em texto recente:

"O que descubro – e que tem se mostrado um caminho bem mais difícil do que eu imaginava que seria – é a necessidade de se manter, pelo menos em parte, estrangeiro à própria vida. Manter algo de si no vazio, uma parte de nós capaz de olhar para o todo como terra desconhecida, aberta para o espanto de nós em nós. Ou seja: é preciso ser capaz de olhar para nós mesmos com estranhamento para que possamos enxergar possibilidades que um olhar viciado tornaria invisíveis. Este é o processo de se desconhecer como uma forma mais profunda de se conhecer. Para novamente se desconhecer e assim por diante. Exige muita coragem. Porque dá um medo danado."

É, dá um medo danado. Aquela sensação de velho, de ter muita responsabilidade, de não se permitir errar porque muito está em jogo. Mas também dá um frio na barriga maravilhoso. Aquela sensação de uma criança ao descer uma montanha-russa.

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