quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A dança da solidão

"O homem deseja ser confirmado em seu ser pelo homem, e anseia por ter uma presença no ser do outro... - secreta e timidamente, ele espera por um Sim que lhe permita ser, e que só pode vir de uma pessoa humana a outra." (Martin Buber)

O clique do mouse piscava na tela no espaço dedicado ao 'status' do Facebook. Parei. Só. Pensei. Só pensei e decidi andar ao Hortifruti, deixando o piscar sedutor do status pra mais tarde. Respirei.

Saía do Hortifruti, sozinha, quando o sistema de som começou a tocar, em saxofone, "Noite Feliz". Talvez tenha sido a musicalidade do sax, aquela coisa de um vizinho solitário que toca durante uma noite fria a sua melancolia, talvez tenha sido o clima de Natal e minha lembrança das várias pessoas que vivem de fato sozinhas e de como a época não contribui em nada para as suas angústias (ou escolhas de vida), se estas existirem, talvez fosse minha mente mais livre - agora que tenho mais tempo - para pensamentos soltos e suas associações com o que nos cerca. Sei que imediatamente me lembrei que há tempos queria escrever sobre ser ou estar só.

No português o verbo faz toda a diferença, eu sei, mas no meu argumento, pouca. O que me atormenta, neste cenário ilusório de muitas e cada vez mais conexões que a tecnologia e suas redes permitem é como podemos nos sentir sós, neste caso o estar leva ao ser (ou poderia ser o contrário).

Uma amiga que também trabalha em casa como eu e que, também, tem seu 'ganha pão' focado nos 'amiúdes' da internet me confidenciou que tem cada vez menos vontade ou paciência (ou poderia ser o contrário) pra se encontrar fisicamente com as pessoas, pra jogar conversa fora, pra entrar em debates profundos da vida (aqueles que gostamos quando estamos em uma mesa de bar com amigos). Fui percebendo que ela não está sozinha (neste caso!) e que conheço mais gente se fechando.

É um círculo pouco virtuoso? Ou teria ela identificado o que a faz completa (pequenas e poucas ligações)? Ou seria coisa do ovo e da galinha: um estar só que a faz querer ser só e se bastar ou um se bastar que a fazer querer estar só? Ou seria a tal 'falsa ilusão' de contato e de intimidade e interação proporcionados pelos amigos do Facebook, Twitter e afins?

A conclusão da minha dança da solidão e do meu muito pensar (ou poderia ser o contrário) é que no fundo, lá no fundinho mesmo, estaremos sempre sozinhos. Aquele segredo que você nunca contou pra alguém, aquele medo que ninguém sabe que você tem, há coisas nunca compartilhadas no seu mural. Imagino. No meu há. Há uma realização de que poucas mãos serão estendidas em sua direção quando o 'bicho' realmente pegar.

Concordo com o Martin Buber, quem deu tanta ênfase à interação, à comunicação e ao diálogo. Mas também concordo com um escritor italiano, Dino Buzzatti, citado por Arthur Dapieve no Globo, dia desses: "Justamente naquela época Drogo deu-se conta de que os homens, ainda que possam se querer bem, permanecem sempre distantes; que se alguém sofre, a dor é totalmente sua, ninguém mais pode tomar pra si uma mínima parte dela; que se alguém sofre, os outros não vão sofrer por isso, ainda que o amor seja grande, e é isso que causa a solidão da vida."

 
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